terça-feira, 8 de novembro de 2011

PÁLPEBRAS DE NEBLINA

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas. Da Praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban - filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de uma tarde que parecia não acabar nunca. Ah! Como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi. Estava encostada na porta de um bar.  Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo mal pintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja.



Ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar
Chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. Exposta, imoral, escandalosa - sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém. Charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia - uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos.  Comparada à dor dela, que ridícula a minha dor. Fui caminhando mais leve.  Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando Gemeu "dói tanto", contei da moça  chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou "por quê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso por tudo, sem pedir nada de volta.
Caio Fernando Abreu .

Um comentário:

  1. imagino o Caio ao escrever isso.....por certo que precisamos disso as vezes, comparar o nosso drama com outras realidades que nos deixam com a sensação que nada temos...

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