Sexta feira vestia outras roupas, estive amarelado com cores outras, estive mais brasileiro do que sempre. Era eu quem estava lá. Peguei ônibus, caminhei medroso pelo centro de São Paulo sentindo falta de qualquer refugio de mim. Era eu no centro buscando meu eixo, morrendo de vontade de parar em um canto para chorar. Para isso seria necessário nivelar-me a tristeza e a solidão de alguns que por ali habitavam ou apenas passavam neste dia em que me habilitei autônomo, em mais um dia que estava sem meu grande amor, em mais uma tarde solitária e alimentada de sonhos, em mais uma lunática cavalgada de lanças de frente ao meu grande dragão. Sim, eu precisava de um amigo, eu precisava de afeto. (afeto é preciso) Fico pensando e não sei se admiro quem não precisa de palavras confortáveis ou de um instante de tranqüilidade para o menino de cada um, será humano esse desafeto? Não era momento para desarmar-me, despir-me de homem forte e revelar-me humano. Ainda era preciso assinar, preencher fichas, xerocar, protocolar documento, comer algo barato e ir cheio para a dança. Cheio do que?
Busquei refúgio em um doce lar de um amigo. Amigo, pois acredito e respeito sua sutileza ou tentativa taurina no trato delicadamente brusco de me fazer melhor a cada encontro. Agradeço o discurso, o café, o abraço, a opinião formada e relativa pelas experiências vividas. Agradeço a incerteza e a movimentação turbulenta de todos os nossos encontros em mim. Fui tratado, ouvido, talvez falado posteriormente, e isso realmente não me importa mais, agora que tenho consciência de que o que fora dito não representa nada de mim, visto que até agora eu pouco sei do que sou, apenas sou. Eu sou o meu segredo e estou revelando-me, namorando-me um pouquinho mais a cada dia.
Falei então apenas assuntos seguros e notei que a fragilidade da segurança estava em considerar o outro ponto de vista, os meus heterônimos e a opinião alheia. Assim percebi que em algum momento eu não estava de fato respondendo o que ouvia, ou não ouvia a pergunta correta, ou por não querer responder criava. Decidi sair.
Uma coca cola para caminhar mais parecido com todos e despercebido de olhares. “Vejam, ele está tomando uma coca cola zero”, sentia - me mais seguro com essa imagem do que estar caminhando sem nada nas mãos. “Quem será esta pessoa e do que será que ela gosta?”. Coca cola zero era a marginal resposta inicial.
Fiz o caminho antigo até o ponto de ônibus, reconheci pensamentos antigos no caminhar por calçadas velhas, regadas de novos passos. Esquina da Major Diogo com a rua Santo Antônio, quem me desejaria neste cruzamento? Os gays são avaliados nestas faixas de pedestre, eles se comunicam, inflam, inflamam o ego e destoem o outro apenas com um ataque do olhar. Envergonhado de não ser mais como essas muralhas, “firme e impenetrável”, que sempre atravessava, passei sozinho de cabeça baixa pela faixa, sem querer ser visto. Pensava, a todo o momento, qual seria o novo passo saudável para dar, qual lado mais seguro ficar. Entrar pela direita, passos firmes, suavemente, acendo um cigarro para ser então um fumante caminhando ou canto uma música para parecer um poeto solto pela rua? Passei pelo hotelzinho aonde um grande amor começou, caminhei pelo viaduto sem suas mãos ao meu lado e sem a certeza de que teria suas mãos em outro momento. Lembrei de algumas fotos suas na Argentina, do seu sorriso magro, farto de tristeza, reconheci em meu caminhar farto de solidão que há tempos me acompanha.
Estava em direção a dança que os ventos me preparava, respirar e movimentar a mente e libertar meu inconsciente. Precisava deste pedacinho de céu, de companhia de anjos, merecia trabalhar com algo útil toda minha compreensão da falta e da certeza de amar e não ter você. De lá, saí fortinho e segui viagem, fui conhecer coisas e pessoas novas e ver reverberar-me diante de tanta beleza e sonhar com você e sentir sua presença. O que será preciso aprender para viver pleno ao seu lado? Será que esse desejo é real apenas em mim? Apenas eu construí esta fantasia ou tudo é real porque já vejo sem ter? Quase como um milagre...
Você faltou, seu abraço faltou, seu olhar perdido, sua criança não estava comigo, você não quis brincar mais. Nossos pais nos trocaram de escolinha. Agora cada um viverá em uma nova escola de vida. Na minha escola a matéria favorita é o amor.
“Mesmo com tantos motivos
pra deixar tudo como está.
Nem desistir nem tentar
agora tanto faz (...)”
Eu voltava para casa, silencioso, apreciando o momento novo, calado. Contemplava a rodovia dos canaviais, contemplava o sol rosando o céu e o dourado iluminando o verde da cana. Súbito me levou a descer do carro, atravessar correndo todo o canavial, fatiar-me de pressa na lâmina das folhas cortantes, temendo angústias e com a esperança de chegar a uma casinha, lavar o chão, pintar as paredes, perfumar por inteiro para convidar-te a plantarmos juntos novas sementes, aguardarmos preguiçosos juntos a colheita de cada plantação. Não pude. Isso fora sonho infantil, (ou instinto) nada maduro. Não real. “Bobeira sua”. “Um surto seu”. Puni-me e registrei este sonho não vivido, contudo reconhecia toda a nobreza e a fragilidade do nada real mas da perfeição que minha mente permite sonhos como este de existir.
Anoiteci em casa, forçava o cansaço para não ouvir perguntas sobre quais seriam meus plano na semana.
Responderia: respirar corretamente, comer nas horas certas, ficar bem, distrair-me com meus desenhos enquanto aguardaria o tão esperado sim. Que entendimento é esse que tenho que me leva apenas a esta ingênua vontade de ouvir seu sim?
Dormi cedo.
Gratidão!
Você estava para chegar. Minha mãe e Marta preparavam comidas para sua chegada enquanto eu aguardava. Abri a porta e você surgiu acompanhado de um amigo e com um desconhecido. Este “desconhecido”, loiro, jovem e sorridente, inocente de nossa história olhou-me e tentou trocar um prazer em conhecer. Meu leão sabia o que representava a ameaça deste “desconhecido”. Não o amei, nem agradeci sua chegada, nem ao menos tive qualquer prazer em conhecê-lo (Este o seu novo seu). Entraram e constantes foram meus maus tratos a este garoto, fui cruel assim como fui tratado outras vezes pelos seus. Maltratei-o e você percebeu. Agiu como sempre para elucidar minhas dúvidas sobre o seu desprezo por mim. Você saiu e levou o garoto. Minha mãe tentou de um tudo, mas eu fui atrás de vocês. Esta e Marta seguiam-me. Fui em busca de “honrar-me”(rs). Saí pela noite em sua busca pelo centro da cidade. Minhas mulheres me acompanharam e perguntei após a exaustão - Vocês sabiam? Quem é este menino lindo que o acompanha, este jovem tela branca? Eles irão pintá-lo, borrá-lo! – Marta respondeu – É alguém que ele deseja gostar. Mas não amar assim como ama você, agora olhe para você e diga se há condição e se será justo você ficar diante desde menino com tanta sujeira no rosto borrado? Você sabe que é capaz de destruir tudo, seu olhar transmite a fúria da desintegração, seu amor quer te ver tela branca e transparente outra vez para pintar-te reluzente – e eu disse à Marta, “estou completamente imundo”, e ela continuou – Lave-se, transpareça sua face mais útil para que possa encarar limpo outra vez. Chorei, era dor de abelhas ferroando-me, inflamando todo o corpo, expulsando sangue e pus pelos poros e as águas de esgoto da Santo Antonio subiam pelos meus pés, puxavam-me para o chão. Morri novamente em busca do meu grande amor. Sozinho voltava para casa e presenciei, num domingo de futebol, gaviões matando um jovem imundo jogado na esquina. Minha mãe correu desesperada para salvar ou derramar pranto sobre este corpo. “Filho, é você?” Eu respondi e ela olhou para trás e me admirou banhado, lavado por águas claras, limpo. Ferido e vestido de grande homem. “Venha, mãe, acalme-se que este jovem aí não sou eu. Fora antes, mas agora eu sou este aqui.
Acordei, nesta segunda feira as cinco da manhã, optei por chá e não café. Pensava que fumaria um cigarro apenas e voltaria a dormir. Tratei-me como um aparelho de liga e desliga. Ilusão! Agora o sol se apresentou e todos os moços já estão nas construções de seu dia. Farei agora um café para começar o meu dia pleno.
(Alex Houf.)
Foi doce, foi puro, satisfatório e completo.
ResponderExcluirPara uma noite foi muito mais do que esperava, senti conforto, carinho, desejo, tudo que eu precisava naquele momento. Mas de repente senti que te perdi, que tudo aquilo que aconteceu a minutos atras jamais se repetira.
Pois eu sei que fortes foram nossos momentos, não foram plenos, mas foram nossos.