quarta-feira, 7 de março de 2012

"O PROBLEMA DO PRAZER"

Com um titulo destes talvez queiramos abandonar logo o assunto, talvez alguém queira argumentar logo de cara: Afinal que despropósito é este? "Problema do prazer"? O prazer não é um problema é a solução para as minhas dores emocionais e meu tédio!

Sentimos solidão, alguns de nós, sofrem por não dividir a vida com o próximo,com uma “cara metade” ou porque não conseguimos compartilhar a vida e o espaço físico com o próximo, o que também é sofrimento. Sofrimento solitário ou compartilhado. Sofremos porque nada nos acontece de verdadeiramente extraordinário e aquilo que acontece perdeu sentido há muito tempo. Sofremos com nossas ansiedades, medos, dúvidas, desejos, anseios, impotência, frustrações e tudo isso gera mais conflito e confusão interna. Eu concordo, não há problema no prazer, na alegria, no amor, o problema está na fuga. Fugimos o tempo todo de nós mesmos, das nossas criações mentais que nos aterrorizam, fantasmas do passado que são. Fugimos sem saber do que, e nem para onde!
Em um sábado à noite, sozinho no meu apartamento, sofro porque estou só, porque algo dentro de mim me angustia, porque não quero vislumbrar toda a dor que eu mesmo gerei. E podemos dizer que estamos cônscios de que nós mesmos criamos o sofrimento? Que estamos condicionados, com a mente trancafiada no passado e almejando um futuro? Admitimos que estamos presos nesta ratoeira psíquica?
Por isso estar só (mesmo estando acompanhado) é horrível, é insuportável. Somos obrigados a conviver com nós mesmos, com aquilo que somos e não aceitamos; daí é necessário fugir, distrair-se, ou seja: tirar a atenção de nós mesmos. Criamos condições múltiplas para a fuga, distrações requintadas para esconder nosso tédio mortal, inventamos a TV, música, teatro, cinema, família, trabalho, sedução, sexo casual, bebidas, poderosas drogas, status social. Seria a nossa evolução humana e social a causa? Afinal quando aprendemos a plantar precisamos inventar alguma coisa para fazer enquanto a colheita não chegava, ou então morreríamos de tédio, no entanto tudo isso vai nos embotando, condicionando e, principalmente, distraindo-nos daquilo que sentimos e somos. Talvez como nômades coletores a vida tivesse mais graça, aventura, perigo, o que nos mantinha num continuo estado de atenção e presença.
Estando ou sentindo-me só, logo quero distração, e a memória primeira que surge para solucionar o caso sempre é a mais prazerosa claro, para muitos seria o sexo, para outros comer, ou ambos, sair para comprar, embebedar-se, enfim múltiplas possibilidades, mas eu vou continuar no sexo, porque seria o meu primeiro pedido e como nos diz o tantra é aonde está o primeiro nó e todas as demais opções, na maioria das vezes, servem apenas como um consolo à falta do gozo sexual. Folheamos nossa agenda, ligamos para todas as pessoas com quem já tivemos algo. O primeiro impulso é repetir porque, afinal, uma nova conquista daria trabalho, poderíamos não sair vitoriosos, poderíamos nos ferir, detestamos tomar um fora, então reviramos novamente o passado, aquilo que já foi conquistado, o mais simples e seguro – ainda que a experiência não tenha sido realmente prazerosa, é melhor do que estar só diante de si mesmo, ali almejamos deitar nossa mente para o prazer, como fuga da atenção íntima.
E não importa, amanhã ou mesmo no momento seguinte, lá está novamente àquela sensação horrível de se estar só – deitado do lado de alguém, e profundamente só. O mesmo pode estar sentindo a outra pessoa, e não é cômico que estejam os dois juntos sofrendo de solidão?
Depois do abraço sexual, um tanto insatisfatório já que não estamos por inteiro ali e uma parte de nós ficou do lado de fora do quarto, tudo o que queríamos era despejar a figura incomoda que está ali atrapalhando a nossa paz, melhor o nosso bode. Tudo o que queríamos dela já foi conquistado, já "coisificamos" a pessoa, agora queremos descartar o objeto de prazer fugaz, porque nós mesmos nos sentimos descartáveis.
O impulso primeiro de buscar as experiências do passado também é válido aos inveterados caçadores de aventuras e romances. Em um primeiro momento, podemos acreditar que aqueles que saem para seduzir uma pessoa nova por noite buscam a aventura, a novidade, porém, na realidade, estão repetindo, porque o processo de conhecer e conquistar alguém ficou mecanizado. Criam métodos para a sedução, repetem gestos, olhares, usam as palavras certas para cada tipo de vítima. No fundo, estão explorando a carência do próximo, sendo eles próprios carentes e buscando de toda forma esconder e extinguir isso – mas também não será possível, porque só podemos extinguir algo que exista, que seja verdadeiramente real. Então surge a questão:
Seria a solidão real? Sentimo-la de forma muito vívida e intensa e diremos que sim, a solidão existe. Então, quando se sentir triste e solitário, não fuja lendo uma revista, assistindo TV ou ouvindo uma música para melhorar o “astral”. Se aquele sentimento é real devemos lidar com ele como sendo real. Imagine que um elefante se materializa em sua sala, como você conseguiria ignorar o belo gigante? Seria possível levar sua vida com sua rotina em casa normalmente com o hospede nada chamativo? O sentimento é este elefante que teimamos em ignorar.
Proponho que você mergulhe no sentimento profundamente, esteja completamente atento a todo o movimento dentro de si. Digamos que o "Dumbo" que você tenha encontrado seja a tristeza: Como é este sentir-se triste? Sua respiração muda? Seu corpo fica tenso? Há uma sensação de dor? Onde dói? Detenha-se a perceber e estudar o sentimento no corpo, e tão somente nele. Fique com a sensação e ela naturalmente se esvai, não porque você lutou contra ela, ou fugiu para as memórias de experiências prazerosas passadas, mas porque você a observou, sem guerras, sem culpas, sem julgamentos. Isso significa jogar luz nas trevas, mas não dentro daquele conceito místico pouco prático. É tomada de consciência sobre si mesmo, existe afinal algo mais importante para você do que você mesmo? Sejamos honestos.
E, se você puder manter-se consciente com todos os acontecimentos do seu dia, então não haverá identificação com os fatos e pensamentos. E talvez você descubra que o Elefante imenso na sala de sua mente, era imaginário!
Mas e sentimentos pouco simpáticos? Por exemplo a raiva, é tão feio ficar com raiva, chega a dar raiva ficar com raiva! Quando você estiver com raiva de alguém, sinta toda a raiva, sinta-a em seu corpo e não a transforme em crueldade, não a lance para fora de maneira insana e destrutível. Observe-a carinhosamente, eu sei que parece ilógico, carinhosamente vivendo com a raiva, mas esta aparente loucura paradoxal é possível, observe-a até o fim e logo você vai perceber que a raiva nada tem a ver com a pessoa que a originou, porque não é ela, é você! Você é a origem, não o outro!
Ficará claro que o outro é o botão que aciona, porém a raiva está dentro de você, ninguém poderá lhe dar raiva, não é algo palpável que se possa transmitir. Ela está dentro de você, ela é você naquele instante, não algo separado. Você a criou e alimentou durante todo esse tempo e quando você a enxergar integralmente, não haverá agente externo. Retire o objeto e fique com o movimento interno. Novamente com a sensação física, corpórea.
O objeto é a pessoa com quem você briga constantemente, o computador que pifou, o trânsito lento, a conta alta, o sumiço de seus objetos, tudo isso é externo e nada tem a ver com a sua mente. Mas o problema está na identificação, estamos sempre valorizando o externo. Assim, diremos: “Fulano me deixou com raiva”, e isso não é verdade. Você experimenta a raiva, sua identificação com a forma, associa o sentimento com os agentes externos e assim ela se mantém. Você já viu uma criança obstinada por sua brincadeira? Uma criança pode ficar horas fingindo ser um enfurecido Leão, com uma cara muito feia, rosnando por ai, somos crianças crescidinhas obstinadas pelas imagens que criamos a respeito de nós e dos outros, com uma desvantagem, esquecemos que estamos fantasiando.
O problema é profundo e, no entanto, convivemos com ele diariamente e sem refletir a respeito. Eu sei que há proposições filosóficas ou espiritualistas que dizem que tudo é a mente, então aqueles problemas também são a sua mente, você criou o evento, ele é fruto do seu apego às situações desagradáveis e ao artifício da fuga que gera condições para que você continue fugindo e fingindo, uma espécie de mágico sofredor e fujão, que se acorrenta para depois se libertar até o próximo show! Mas não pensemos neste David Cooperfield chorão e na construção do mundo pela sua própria mente, pois isto pode afrouxar ainda mais os parafusos da minha cuca, precisamos olhar para a coisa a partir do mundo dual mesmo, objetivo, quando surgem os obstáculos e seus fenômenos internos, como a raiva por exemplo, e queremos fugir ou não sentir, gerando aversão ao sentimento, neste instante fique com as sensações! E faça o mesmo para o agradável, porque também ambicionamos perenidade para o prazer, mas toda e qualquer sensação é impermanente, esquecer disto resulta em sofrimento e está é a realidade ultima a respeito do mundo: transitoriedade!
Para ser feliz precisamos ver as coisas como elas são, porém sem observação fica impossível uma transformação real. Buscamos o prazer como fuga da dor. Se pudermos ter ambos, prazer e dor, integralmente, sem fuga, então há liberdade, há silêncio, não há culpa, não há julgamentos.
O importante é o mergulho, a atenção plena e pura, sem corrupção, sem interferência dos pensamentos deliberados e condicionados, que são a experiência do conhecido. Seus relacionamentos poderão ser reais, a partir de que são o que são, e não uma fuga da dor e do desespero. E sua dor também será real, ela ganhará a dimensão certa, porque dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. É um dito fabuloso, se pudermos levá-lo ao mundo factual, se, nas nossas relações, pudermos observar a nós mesmos, sem mascaras, no ato, em tempo real, poderemos descobrir em nossa subjetividade o ponto exato em que transformamos dor em sofrimento!
E porque fazemos isto? Talvez porque adoremos nos fantasiar de "coitadinhos" e desejamos permanecer assim contraídos no medo e na interminável infância dorida, que nos possibilita adiar a responsabilidade sobre nossa felicidade e jogar a culpa em todo mundo!
Mas voltemos ao prazer, que todo mundo gosta e quer. Se você puder entender, observar e experimentar o prazer sem a corrupção do pensamento, então o prazer poderá ser evocado, porque não haverá objeto externo a provocá-lo. Ele existe dentro de você e, sendo você mesmo, ele está aí, nas coisas simples e cotidianas e até no próprio ato de “nada” fazer. Esse prazer está se transformando, ele não será o oposto do sofrimento, como se um existisse pelo outro! Não! Algo novo está ocorrendo, esse prazer é êxtase, Samadhi, prazer de ser você mesmo!
Neste prazer de simplesmente Ser, abandonamos as rotas de fuga do desagradável, nesta descoberta de si e do outro nas relações, poderemos amar de verdade, sentir plenamente, tocar o real. Não nos prostituiremos mais por um pequeno instante de fuga da dor – o que, francamente, só poderá gerar ainda mais dor. Compreendido isso, passamos a investigar as causas mais profundas do sofrimento humano, encontrar o novo, a liberdade, verdadeira compaixão nascida da compreensão de si.
Agora gravitacionamos em volta do pequenino eu machucadinho, giramos ao redor da dor, a arte de viver com sensibilidade e atenção gerará na própria atenção um novo foco centrípeto e centrifugo: de atenção que se volta para dentro e de atenção na direção de tudo e todos. Seu prazer terá a qualidade da verdade e dabeleza!
Mas não faça disto uma promessa, um bilhete premiado na loteria do Espírito, ou então você conseguirá transformar o que é vivo em morto, você se converterá num "Quase-Buddha Zumbi", correndo atrás de uma borboleta imaginária chamada iluminação e felicidade, e recorde zumbis são meio bobos, molengas e muitíssimo lentos, eu nunca vi um zumbi agarrar uma borboleta.
A atenção e a sensibilidade não é algo que você vai conquistar amanhã, num futuro colorido quando você se tornar mais iluminado, a atenção e sensibilidade é pra já!
Então observe o que você esta sentindo agora?
E agora mesmo já está presente a atenção plena!
O tesouro incomparável! O ornamento divino na coroa de todos os iluminados!
Que todos os seres sejam felizes!
Que todos os seres estejam em paz!
Que todos os seres despertem!
Vida Plena!
Vajrananda (Diógenes Mira)

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