sábado, 17 de março de 2012

OS BURACOS DA MÁSCARA

Acordei, neste sábado, condicionado ao não posso. Na medida dos acordos entre o outro e mais outros e eu em relação aos demais e a mim. Então respirei. Pensei. Lembrei do mais fácil, sem incomodar o sono alheio, pois despertei mais cedo, como sempre. Vou fazer um café e fumar meu cigarro. Recordei da ciranda formada na noite anterior, na saudade e no desenho de encontros, desencontros, nos desejos de ser, praticar e viver bem. Café com cigarro? Uma coisa por vez, vou compensar com uma bela vitamina (leite de soja, linhaça moída, uma banana, mamão, maracujá, açúcar mascavo) e pão na chapa com manteiga. Fumei. Comi. Bebi como rei.

Liguei a televisão e ouvi uma voz Rubi, que fez meu coração de ficar abatido... Respirei... uma... duas... e o fluxo até o presente.

Caramba, como gostaria de ler um autor de contos fantásticos com uma temática próxima aos meus sentidos. Sentado no sofá, Rubi cantava sua negritude, Anita Garibalde lutava por seus ideais, e eu?
Abri o emprestado livro de contos do século XIX e me deparei com uma descrição:

"(...) (1855 - 1906), escritor maldito da Paris fim-de-século (homossexual e drogado - bebedor de éter - nos tempos em que a ostentação desses costumes era bem mais escandalosa do que hoje), (...)"

Dei uma risadinha de canto, silenciosa, amei o maldito e iniciei essa leitura:  

OS BURACOS DA MÁSCARA (Jean Lorrain)

Acho que atenderam meu pedido para esta manhã. Li algo que meus sentidos reconhecem, temem, tremem em recordar, imaginar e constatar alguns buracos em lindas máscaras.

Esse trabalho de mascarar a vida é uma questão que me tira do eixo. Não compreendo o porque do ser humano acreditar que precisamos utilizar máscaras para convivermos socialmente e alcançar objetivos? Quais objetivos são esses que é preciso esconder o verdadeiro eu para convencer, vencer o outro, também mascarado, e ficar nesta disputa de sonhos doentios que partiram de um mascaramento e não do encontro do eu com meu eu? Bem, ainda duvidei um pouco da realidade "baile de máscaras" e comecei a retirar conceitos decorados sobre pessoas e todos os penduricalhos que coloquei em mim antes de mim.

- Prazer, Alex - disse o Alex.
- O que? Mas é tão simples assim? Questionei.
- Não. Isso é só uma tentativa de desconstrução. A construção é a mais delicada. Desconstruir-se é um passo importante, mas o reconhecimento e a construção de si de acordo com o que você quer ser é uma grande jornada...

Lembrei do sorriso de um grande amigo que me dizia "Tenho uma notícia boa e uma má noticia para você. A boa é que você é dono da sua jornada e a má é que você também é dono de sua jornada".
Mais um café e um cigarro para fingir que aprendi a respirar. Inspirei toxinas e expirei inseguranças. A vida minha pertence ao Alex, ao Gabriel, ao Alex Gabriel, ao Houf ou ao Andrade?

- Eles se conflituam?
- Sim sempre, isso não é normal?
- Sim. Isso é normal e é por isso que o outro só pode penetrar quando todos esses "vocês" estiverem em acordo, após despidos, vestidos com os trajes que melhor escolher.
- Sim, claro. Obrigado.

Nossa, mais um trago! Inspirei a dúvida e expirei mais dúvida ainda... Tudo bem, sempre foi assim. Administrar todos esses criadores, poetas, administradores, advogados, Exus e Oxalás com contrato vitalício em mim. Então tirei a máscara e encontrei corpo, voz, meu espirito, meu toque, meu cheiro. Reconheci que eu SOU.

Não arrisco mais sair desmascarando os outros. Eu bem sei a dor e o trabalho que dá tanto para mim quanto para que não pediu por isso. Acredito no Tempo de cada um. Será necessário um dia. Tempo, Tempo, Tempo, Tempo...

Fico temeroso apenas quando penso nas gerações, porque é fato, que passaram, existem e surgirão que nunca colocaram-se neste lugar de desmascarar-se... Histórias a base de máscara, contos canções, decisões mascaradas... Precisei fumar mais um trago. Inspirei um pavor imenso e expirei esperança. Uau! Expirar esperança. Ter esperança... saber esperar. A vida trata de tomar conta das coisas.

Vá para o baile vez em quando, apresente a sua máscara, permita ser contemplado, mas ao retornar em sua solidão, Alex, retire-a, limpe-a, redecore, transforme... Amanhã você será outro e por dentro será sempre o maior presente seu: Você.

Alex Houf.

Um comentário:

  1. Eu nunca sei qual sou eu mesmo e qual é máscara. Geminianos, somos assim.

    ResponderExcluir